quinta-feira, 12 de maio de 2016

Pra Variar,Estamos Em Guerra.



 Umas três colegas começaram a discutir sobre militâncias depois da aula de teatro.Bem, discutir é o que eles mais fazem mas daquela vez foi diferente pois tinha a ver com uma cena que elas planejaram apresentar para o nosso professor em que uma das meninas usa uma camisa que falava de forma bem incisiva e emblemática sobre a luta contra o genocídio.Tudo bem se não fosse uma menina branca e loira, era justamente por isso que as coisas se acaloraram mais do que deviam.Uma delas era negra e te bastante contato com o movimento, tinham uma forma de olhar diferente delas por esta razão.
 Eu não me considero dentro de movimento nenhum entretanto, me sinto na responsabilidade de desconstruir tudo o que me foi imposto como certo e indiscutível antes mesmo que eu tivesse faculdades mentais que me induzissem a questionamentos e observei a tudo.Ás vezes, acho que minha opinião é tão em cima do muro que eu mais observo do que falo alguma coisa.
 Depois fui me confessar sobre uma coisa muito íntima que tinha a ver com a postagem de uma página que eu sigo que é permeada por diferentes pautas e aborda elas de uma maneira praticamente didática,  por meio de tirinhas.Eu disse sobre o quanto que chorar é uma coisa problemática pra mim, mais do que relacionado á heteronormatividade (que vem do ódio que se tem por tudo o que seja relacionado ao gênero feminino),áquilo é relacionado a uma experiência próxima de um trauma.Parece que muita gente se identificou com aquilo bem como as coisas que eu disse mas uma moça disse que eu deveria procurar algo de menos fútil para fazer,ajudar necessitados por exemplo.
 Eu realmente não sei como ajudar outras pessoas se não sei nem como me defender, ninguém sabia disso até agora mas eu tenho medo de moradores de rua, medo de ser abordado por eles, medo de estar tentando abir a porta de casa na volta do teatro e policiais me autuarem por pensarem que estou invadindo.Medos que dentre outros, me deixam em estado de conflito interno, vontade e ação estão em trincheiras e,entre elas, há um campo minado.
 Quando estou em guerra comigo mesmo, tento esvaziar a cabeça.Tento pensar em ajeitar minha vida e, vagarosamente, tentar partir para causas mais altruístas como das Mães de Maio,aquele protesto me deixou rouco até hoje mas pelo menos tinha coxinhas e groselha.Tem algumas guerras pelas quais vale lutar mas é aquela coisa, saiba qual é seu inimigo.
E que este não seja a democracia, por favor.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Neutro

Esse exercício consiste em contar uma estória, real ou fictícia, de forma que sua expressão e a movimentação de seu corpo sejam totalmente neutras.Começando por JV...

- Eu vou dizer "Olá', me sentar na cadeira e convencer vocês de que o impeachment não é golpe.


...

- Olá,eu vou convencer vocês todos, aqui presentes, de que o impeachment não é golpe.Eu reuni algumas provas e sobre elas,pretendo falar resumidamente.Por exemplo, a declaração que Sérgio Moro deu sobre finalizar a Operação Lava-Jato até dezembro não tem nada a ver com golpe,eles sabem o que eles estão fazendo.O fato de nosso futuro presidente, por enquanto vice, ter sido indiciado umas quatro vezes apenas durante a operação também não tem nada a ver, indício por indício é café com leite, um anula o outro.Pense no futuro da sua família e peça pra tua amante votar também pra deixar tudo nos conformes, coloque ela no grupo da família, quem sabe o pessoal deixe de encher o grupo com correntes e mensagens de bom dia iguais aos scraps do orkut.
 Aposto que a mulher do Cunha também tem amante, afinal ser bela, recatada e do lar vinte e quatro horas por dia,sete vezes na semana deve ser muito chato.Talvez por isso ela não lembre de tirar o processo do marido dela da gaveta pra limpar, imagina o trabalho que deve ser.
 Inclusive, o marido dela deve ser meio estúpido, foi aprender a declarar imposto de renda com o Neymar, um moleque que fala feito um semi analfabeto, aí toda vez que é pra declarar o imposto,ele calcula o valor errado, depois o povo fica reclamando, se a conta é dele,deixa ele em paz, pelo menos não tá colando dos colegas de partido.Uma coisa que eu reparei foi que os colegas da Dilma aprenderam a fazer pedalada com o Neymar mas sabe como é, futebol não é lugar pra mulher, Marta ter feito mais gols que o Pelé não quer dizer nada.
 Se eu não convenci vocês, quem sabe vocês precisem de mais um incentivo,tão certo quanto os dez dedos das mãos do Lula, todo mundo sabe que isso é uma questão de nudes.
 Já tivemos nudes do Stênio, do Caetano, por que a Dilma não libera pra nós? Tem que sair mesmo.Tem que bloquear o whats mesmo, até encontrar.É verdade sim sabe por quê? Porque tirar a Dilma do Planalto não interessa.Só o cume interessa.


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Chinelos azuis e bermuda de exercícios
Caronas pela praia
Macarronada com ovos
Você e eu fomos mais do que isso

Piadas sujas e alguns conselhos
Conversas à distância
Seus versos e meus trocadilhos
Será que fomos mais do que isso?

Um beijo, roubado pelo príncipe da névoa
Ensaiando ser feliz
Petiz com olhar que,de paz,o coroa
E nada se compara a isso

Será essa a paz que eu não quero
Ou aquela que disseram existir?
Se me trouxe,veio com esmero
Tragar minha inocência e sair

sexta-feira, 1 de abril de 2016



Linha Azul

Homem - Pela primeira vez em muito tempo, eu consegui um lugar sentado.Muitas vezes, parece que nem pra ficar em pé eu consigo e isso é muito estranho, me faz pensar em como não escolhemos ser estas sardinha enlatadas viajando pela cidade para servir de refeição àqueles que tem poder aquisitivo o bastante para nos comprar.A gente se entromete nas conversas dos outros, na sujeira dos outros, nos sentimentos dos outros,involuntário na ação mas totalmente proposital na atenção que prestamos.Uma vez, ouvi minhas músicas no auto falante,sentado sozinho e cantarolando mentalmente,tranquilo até ouvir duas mulheres conversando,reclamando de uma música esquisita e insuportável que elas ouviam em um tom de indireta,devolvi com uma indireta à altura e depois,senti nojo de nós três.
 
Mulher - Como respeitar o espaço dos outros se vivemos tão apertados?
         Apertados em ônibus,estereótipos,sutiãs com bojo,represas de usinas hidroelétricas,zoológicos e safáris.Independente do que sejam, todos servem para as mesmas finalidades,são a sustentação de algo que dizem nos fazer e trazer
bem mas não sabemos porquê, não entendemos porquê,nem nos perguntamos.Eu não tenho o meu próprio espaço e já não é de hoje,estou desempregada e preciso pagar para usufruir da casa e do carro que paguei pra chamar de meu mas coloquei à venda porque é caro demais ter que pedir permissão para usá-lo.
 No Jabaquara você sempre consegue viajar sentado no fim de semana então não é um desespero tão grande ter que olhar pela janela e desse jeito,saber onde descer.

Jovem - Acho que todo mundo deveria vir com um manual.Aí,quando eu aprendesse a ler,saberia como lidar comigo, como lidar com as falhas dos outros, com as fraquezas que as pessoas apontam em mim.Talvez tanto saber não deixasse espaço pra erros.O que há de errado?Tudo o que eu sei é que, não importa o lugar pra onde vou, nunca me encaixo.Nenhum amigo me chama, querendo conversar quando não estou ocupada.Eu nunca chamo ninguém,tenho ciência disso, mas me parece que todas as amizades que faço tem amigos melhores e mais interessantes que eu.Eu me pergunto se, nos momentos em que eles saem e divertem-se juntos, eles pensam " Que tal se a gente chamasse a Aline pra beber?Ela é legal " mas eu duvido que alguém lembre de mim nessas horas.


Outro Homem - Será que o metrô quebrou? Não sai do Vergueiro faz tempo.

Homem - Não sei,tô achando que tem um protesto rolando na Sé.

Outro Homem - Na estação?

Homem - Na praça.

Mulher - Meu Deus! Perdi o ponto! Desculpem a intromissão mas se eu não tivesse ouvido vocês, não teria reparado nunca.

Outro Homem - Onde era pra você ter descido?

Mulher - Na liberdade.

Homem - Liberdade...não conheço.Como é lá?

Mulher - Eu só vou lá pra trabalhar, nunca prestei atenção.

Outro Homem - Qualquer dia desses eu vou lá, perguntar pra alguém como é ser livre.

(risos abafados)

Jovem - Oi, posso perguntar uma coisa pra vocês?

Outro Homem - Tudo bem, manda aí.

Jovem - Vocês já sentiram que não tem lugar pra vocês nesse mundo?

Mulher - Quando eu era nova,sim.

Homem - Nunca pensei nisso.

Outro Homem - Na verdade não,eu é que escolho não sentar.

Homem - Eu tenho um irmão que nasceu menina.Às vezes,eu fico pensando, será que ele se sentia fora de lugar dentro do corpo dele antes de virar homem.

Mulher - Eu não sei, não tento ser quem não sou.Eu sinto que sou mulher,de verdade, não preciso fingir que sou.

Jovem - Moça,deixa eu fazer uma pergunta só pra você?

Mulher - Tá bom,tô ouvindo.

Jovem - Você tá namorando?

Mulher - Por que você quer saber?

Homem - Opa, já sei sei onde você quer chegar (diz para a jovem).

Mulher - Tenho namorado sim. Faz dois anos, por quê?

Jovem - Seu namorado tá namorando com você ou com a tua buceta?

Mulher - Qual é o seu problema? Não te dei intimidade pra isso não.

Homem - Calma moça,pensa no que ela te disse.

Outro Homem - Começou o mi mi mi.

Mulher - Quem tu acha que é pra se meter na minha vida assim?

Jovem - Pois é,tá com raiva né? Agora você sabe como uma pessoa trans se sente.

Mulher - Moça, não sou obrigada. (retira-se do palco)

Outro Homem - E eu achando que ia rolar briga de mulher.Porra, nem fazer treta vocês sabem.

Homem - Gostei de você (fala para a jovem), passa o whats?

Jovem - Tá bom.Pode falar?

Homem - (tira o celular do bolso) Pode falar.

Jovem - 981288339.

Outro Homem - Já peguei também.Cara,teu cabelo é foda. (fala para o homem)

Homem - Valeu.

Jovem - Já pensou em fazer trança.

Homem - Não.

Outro Homem - Sério? Ué, ia ficar da hora.Tá todo mundo fazendo.

Homem - Pois é, tá todo mundo fazendo.Os caras se aproveitam tanto da cultura negra que nem existe branco de verdade nesse mundo.

Outro Homem - Caralho, como é que essas conversas acontecem do nada?

Jovem - Sabe como é, sou de humanas.

Outro Homem - E eu sou de batatas fritas.Posso te levar pra comer um lanche e tal?

Jovem - Não precisa, vou andando mesmo.


quarta-feira, 16 de março de 2016



Jogo da Mentira









Agente de Trânsito – Pronto,aqui está.

Infrator – Como assim?

Agente – Autuado por direção perigosa e alta velocidade.

Infrator – Que petulância!

Agente– Preciso que o senhor me acompanhe até a delegacia...

Infrator – Teste de bafômetro agora é isso !?Você, anote aí, eu vou recorrer.

Agente – Faça isso,é direito seu mas a justiça não falha.

Intrometido – Mentira!

A – A justiça tá do meu lado.

Intrometido – Mentira!

 A – Vocês vão ver, o senhor vai recorrer, vai pagar propina pro juíz desse caso e eu vou ter que pagar indenização por que vence na vida quem pode.


Um tempo depois...


Juíz – Silêncio no tribunal!

Promotor– Mentira!

Juíz – Barulho no tribunal então.

Promotor – Mentira!

Agente – Mentirosos,vocês estão juntos nisso!

Promotor – Mentira!

Agente – Cala a boca!

Promotor – Mentira!

Agente –  Sabe o que eu quero, Mário Alberto?

 Juíz –  Pelo poder, a mim instituído, declaro que considerando as provas coletadas e a decisão unânime do júri, seria  injusto um juíz sofrer acusações de qualquer sorte.Temos um empasse.  Aqui está em jogo todo um histórico de corrupção, abuso de poder e autoridade, brechas propositalmente propositais instauradas na nossa legislação e reforçadas por valores comportamentais misóginos intrínsecos na sociedade brasileira. Aff que texto enorme!

Infrator – Portanto...deixe viver,deixe ficar,deixe estar como está.

Juíz – Lugar de mulher não é no trânsito! Declaro esta agente culpada por ser idiota e não se colocar no seu lugar devido.A pena é de 7 anos na prisão,esoneramento e indenização de mil seiscentos e sessenta e seis reais. Caso encerrado!

Agente – Mas eu só fiz o meu trabalho.

Promotor – Mentira!

Agente  – Eu fiz a minha parte.

Promotor – Mentira!

Agente  – Meu lugar é na cozinha...

terça-feira, 15 de março de 2016



Geralmente,eu faço assim: Sento no computador quando ninguém está por perto e permito-me encontrar coisas interessantes de onde,possam surgir ideias.Na maioria das vezes,eu desligo o computador sem nada ter me ocorrido.Agora pouco,eu fui ouvir Station to Station do Bowie,lembro que no fim de semana,depois de ver alguns vídeos sobre a morte dele,eu fiquei falando sozinho de madrugada e as lágrimas brotaram de onde eu estava.Me parece ter sido uma memória vaga pois eu me perdi um pouco nas palavras,o tempo todo eu sinto medo do meu pai chegar e reclamar que eu estou no computador e eu parar o que estou fazendo.O problema é que não estou fazendo nada.Ocorreu-me a ideia de falar um pouco mais sobre mim e fazer menos dessas coisas de contos e resenhas porque eu sou péssimo em ambos.Mas praticamente tudo o que nós reconhecemos como bom é definido por tudo aquilo que a sociedade nos diz,isso me faz pensar que talvez eu esteja errado em pensar assim.Obrigado por ter perdido seu tempo.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Céu - Perfume do Invisível








   A voz doce e enevoada fala de um caso curioso, sobre uma mulher que torna-se invisível e apronta das suas com toda a liberdade.Algo que parece sair de um romance cinematográfico um tanto peculiar, um tanto sci-fi,que parece uma mudança de curso na carreira desta moça que tem uma trabalho bastante consistente e charmoso.
    Depois de uma apresentação ao vivo com o cantor,compositor e produtor capixaba SILVA,ficou claro para todos que música eletrônica combina com ela e essa influência aparece aqui.
     Começa esparsa e minimalista com seus sintetizadores e batidas programadas,um clima bem íntimo que incorpora mais instrumentos ao vivo e explode em algo dançante e pop,entretanto o ar misterioso,um tanto ébrio.


http://giphy.com/gifs/42JZugWiT5Mju




     Mas não espere nenhum bate estaca,a música mostra-se próxima da proposta sonora do seu disco anterior,o variado Caravana Sereia Bloom.Um híbrido de muitas influências,nos momentos mais calmos a banda prepara um território próximo do dub que nos pega pelo colo pra nos balançar em ritmos dos anos 70 e 80.Tão intimista e solitário quanto reluzente e convidativo, o clipe representa visualmente essa que é a primeira música de trabalho Tropix.E como se trata de nossa Maria do Céu, as expectativas são altas mas, fiquem tranquilos, não parece haver nada de decepcionante nos esperando.






https://www.youtube.com/watch?v=RaN58mqMwMc





quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Insira Um Título







   - Amor,você tá tão quietinha.No que você está pensando?
   - Suicídio.
   - Por quê,Fê?
   - Com esse calor todo, bem que eu podia virar cinzas.
   - Qual é o problema?
   - Quer mesmo saber?
   - Quero, eu me importo contigo.
   - Estou esperando o dia em que eu estarei respirando com a ajuda de aparelhos, eu vou pedir para desligarem tudo,aí não vou parecer suicida.
   - Tem ideia do que você tá falando? É perigoso pensar assim,Fernanda.
   - Eu me sinto tão fora de lugar em todos os lugares.
   - Que lugares? Como assim? Quer dizer que você não se sente bem comigo?
   - Uma coisa que todos os relacionamentos tem em comum é a bad,quando acabam.
   - Você quer terminar?
   - Eu não tenho culpa se não foi abortada.
  - Espera,a gente não precisa terminar.Tava tudo tão legal, não acredito que simplesmente acabou.
  - Vênus em gêmeos na casa 8,querido.
  - Eu não entendo.Amor,me desculpa.Por favor,você me diz qual o problema e a gente resolve.Eu tô falando sério,você me diz o que é que tá dando errado e eu concerto,eu quero que você fique feliz,só isso.É sério,me diz qual o problema.
   - Acabou a paçoca.
   - Não tem mais nada?
   - Não.
   - Como você deixou isso acontecer?
   - Tinha um pedaço no pote da geladeira, naquela hora meu celular tava tão bosta que até parecia a vida do meu irmão mais velho.Eu fiquei nervosa e acabei comendo.
   - Acabou comendo? Tava lá e você comeu!?
   - Isso mesmo.
   - Não sentiu nada quando fez isso,sentiu?
   - Fiquei querendo mais.
   - Pois o que eu mais quero agora é acabar com a tua raça.
   - Mas amor,toma cuidado que pensar assim não faz bem.Não vai ser pra sempre.
   - Eu acho que o seu cu deve ter inveja da tua boca de tanta merda que sai dela.
   - Como assim,amor? Você não gosta mais de mim?Pensa pelo lado bom, pelo menos não foram usados bordões da Inês Brasil nesse texto.
   - Acabou!
   - Amor!?
   - Não acredito que te aguentei todo esse tempo! Usando o nome da Inês em vão na minha presença!? Tem ideia do que você fez? Ah! Quer saber? Palmas pra você.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Vale dos Homossexuais


https://www.youtube.com/watch?v=lfmxS4Ly9l8



     Não me pergunte muita coisa mas eu já visitei esse lugar umas quinze vezes.E foi uma maravilha.Só que o que eu me lembro é tão vago,deixe me ver.Duas mulheres, uma delas usava uma camiseta que eu adoraria roubar de seu armário de vez em quando mas o estranhamento foi ligeiramente mais forte pelos próximos dez minutos.Lembro também de um rapaz sentado na calçada,com quem eu conversei um pouquinho, apesar de nem mesmo perguntar seu nome a conversa fluiu,gostaria que fosse assim com todos os crushs.



    - Oi
    - Oi
    - Tudo bem?
    - Sim,e você?
    - Comigo tudo bem.Não lembro,de onde te conheço?
    - Sou Miguel.Amigo do Alisson que está no grupo das peças.
    - Ah é que tem outros três com o mesmo nome no meu celular.Aí, eu nunca sei.
    - Ah sim (risos).
    - Tudo bem?
    - Tudo.Perdi meu RG mas tá valendo.
    - Vish como? Coitado.
    - No banco,só reparei depois.
    - Putz.
    - Continuo trouxa.
    - Vish migo, nem ligo mais.Já acostumei.
    - Uma pena mas foi tão mal assim?
    - Migo,sempre sou trouxa.
    - Aposto que sou mais.
    - (risos) Sei lá.
    - (virando os olhos)
    - (olhar de superior)
    - Vai sair na parada?
    - Não, e tu?
    - Não.Sem dinheiro.Sem ânimo.Pra quê?
    - (risos) Verdade.Mas vou comemorar na praça.
    - Eu nem isso.
    - (risos)
    - Sou gótica mesmo.Nada de suave.
    - Gótica trevosa.
    - Luz só na janela do quarto.
    - (risos) Meu Deus
    - Que deus?Deus é pros fracos.(declamando:
                           "Give me love
                           Give me dreams
                           Give me a good self esteem")
     - Marina? 
     - Pois é.O que fazes?
     - Vários nadas.E você?
     - Acabei de lavar a louça.Até molhou meu celular um pouco.
     - Menino,cuidado.
     - Nem me importo,vive travando.Vive fazendo cosplay de vida.
     - Mesmo assim.
     - Tudo bem,ele gosta de um S&M.
     - Ai Senhor(RISOS)
     - E ele não precisa de KY,o que é ótimo pois minha mãe não gostaria.
     - Mas qual delas? E por quê?
     - Ah é verdade, minhas mãe não ligam.
     - "I really don't know what is such a big dildo."
     - Como sobreviver sem dildo migo? (risos)
     - Não se sobrevive,apenas.
     - E como você acha que eu estou? Não sou lésbica pra meter o dedo.
     - Até sapata tem cinta de piroca.
     - Sapata de verdade não usa essas coisas.
     - Eu meio que tenho uma categoria pra isso.As mais macho são as coturnos.
     - Eu chamo as mais femininas de sapatilhas.
     - Eu chamo de sandálias.é porque eu vejo mais as de humanas querendo experimentar tudo.
     - Queria ser o Mick Jagger pra acordar com o David Bowie na minha cama.Tadinho dele.
     - Melhor lembrar dele do que lembrar de ex.
     - Triste.
     - Tanto cu que ninguém come.
     - Uma pena.
     - Me apresenta alguém.Sei lá.
     - Não conheço ninguém que valha a pena apresentar.
     - Ninguém?
     - Não.
     - Ninguém mesmo?
     - Não, migo.
     - Nem você?


 E só lembro até aí.E lembrava muito menos até ver uma pastora dar seu testemunho sobre um tal de vale dos homossexuais, de muito tempo atrás.Uma coisa ela tinha razão,era um lugar bem quente.
  
    
         https://www.youtube.com/watch?v=6HFYPd6Cxqk

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ray Of Light - Madonna (Resenha)






    Ela se encontrou.Uma das grandes ambições de Madonna era se realizar como atriz, em poucos momentos ela conseguiu se destacar e desde o início da década de 90 ela tinha um pequeno feixe de luz o qual sempre se certificava de ver se estava ao alcance,este era o projeto do filme Evita, que demorou anos para acontecer.
    Outra de suas grandes possíveis conquistas era a maternidade, ter crescido sem a mãe é um fator considerável para isso.Quando aconteceram,vieram todas de uma vez.Madonna entrou no elenco da versão cinematográfica de um dos maiores musicais da Broadway interpretando Evita Perón, ficou grávida de Lourdes Maria durante as filmagens e o filme foi um sucesso de público e crítica.A maternidade lhe fez amar verdadeiramente pela primeira vez, entretanto, lhe despertou a espiritualidade.
     Sim, falar desse álbum requer todo esse background.Atenta ao que lhe cercava,mais do que nunca, usou essa sensibilidade na hora de criar o disco, que passeia pela dance music, trance, trip-hop, rock, bossa nova fabricada nos EUA, sânscrito e influências que vão da psicodelia frenética das raves à introspecção.
     Com o velho parceiro de trabalho Patrick Leonard e o talentoso William Orbit ao seu lado,tudo soa coeso e inspirador,com melodias na maioria das vezes eletrônicas, sintéticas e que apresentam diferentes texturas.





   Começa com Drowned World/Substitute For Love, refletindo sobre a solidão e negatividade que a fama lhe trouxe, na esperança de procurar o que lhe faltava.Todavia, sentindo-se cada vez mais vazia.Até o nascimento da Lola,claro.Balada com uma pegada trip-hop que realmente explode quando Madonna canta sobre as pequenas coisas que encheram-na de vazio.
   Depois de encontrar no amor a sua religião, a nossa Material Girl, não pera...Madonna tenta situar-se no mundo com Swim, falando bastante sobre pecados,especialmente sobre expurgá-los, procurar mudanças e mergulhar de cabeça na sua espiritualidade quando diz "Eu vou nadar até o fundo do oceano", tem a ver com abrir mão do ego e se entregar a algo maior que a própria vida.Ray of Light é a continuação desse tema, uma observação, segundo ela própria, de como somos diminutos neste universo ao mesmo tempo nos coloca como parte dele.Algo que tem muito a ver com os princípios da cabala, os quais ela estudava na época, que pregam sobre tomarmos o controle de nosso destino, como fazer o universo trabalhar ao nosso favor entre outras coisas.É intensa, agitada, dançante, contemplativa e cheia de energia, é catártica, é uma maravilha.Tem uma versão não oficial de sete minutos porém acho que foi bom terem cortado os dois minutos a mais pois não acrescentavam muito à música.
     Candy Perfume Girl demonstra ter intensidade,de uma forma mais sensual, anda que estranha tem um lugar no disco por representar a feminilidade.A energia dessa música vem principalmente das guitarras que acrescentam muito ao clima de mistério enevoado que se fortalece ainda mais em Skin, canção mais próxima do trance, "Beije-me,estou morrendo" é um dos versos dessa música extremamente urgente,dançante, hipnótica e cheia de desejo.



 "Nada mais importa./O amor é tudo o que nós precisamos." 
  Mais direta na mensagem em Nothing Really Matters ela continua a observar como o amor pela sua filha a fez mudar, mesmo que fique um tanto piegas em alguns momentos a música é divertida, soa como a Madonna que nós conhecemos em uma roupagem mais doce, aludindo ao ensinamento de dar e receber,estar em sintonia com o universo.Sky Fits Heaven é mais poética, uma das melhores do disco, falando sobre tudo o que ela busca e repassando os ensinamentos que absorveu.É contemplativa e ao mesmo tempo dançante, com mudanças instrumentais bruscas todavia muito bem colocadas. "Eu acho que vou seguir meu coração./É um lugar muito bom para se começar".


  Shanti/Ashanti é um mantra todo em sânscrito com batidas de grave pulsação,ruídos e experimentações que não parecem a esmo na canção mas não acrescenta muito à narrativa.Pelo menos, não como a canção seguinte.Os arranjos de cordas em meio a batidas quebradas, acordes orientais ainda que sintéticos e lamentos sobre uma pessoa que se tornou insensível,talvez um amante em particular, provavelmente a Madonna de Ray of Light voltando no tempo tentando em vão aconselhar a garota egocêntrica de antes, no auge de sua mania por grandeza.Na canção seguinte, Madonna diz adeus a esta pessoa e que não há nenhum problema em se desapegar da negatividade nesta balada agridoce, de arranjos de cordas melancólicas e um violão ao fundo, The Power of Goodbye é libertador e antenado nas novidades da música eletrônica.




     To Have And Not To Hold termina esta trilogia romântica com um último comentário depois do término,há uma dor ao fundo de uma tapeçaria de sintetizadores só que existe esta sensação de que não haver o que fazer e nem porque tomar alguma atitude a respeito disso.Fora desta narrativa, fala sobre buscar o inalcançável, algo que pode se referir à busca por felicidade e contentamento na fama e na fortuna.Little Star vem trazendo o que o disco tinha de dançante algumas canções atrás só que com a mesma pegada suave e tranquila , uma canção de ninar para Lola se lembrar do quanto é valiosa para sua mamãe.E a praticamente sombria Mer Girl é um poema soturno com memórias nebulosas sobre ver o corpo da própria mãe, um mistério até para sua própria compositora.Tem elementos de jazz e música eletrônica, soa calma e sorrateira ao mesmo tempo que bonita. 
"Eu corri e corri./Ainda estou fugindo."
     Não estamos em 1998 e Madge saiu desse caminho mais iluminado faz tempo mas é curioso retornar a este álbum e reparar na forma como cada um registra um momento diferente da mesma pessoa, facetas diferentes sendo reveladas.Neste momento, ela soube criar um auto retrato musical interessantíssimo.
     Sua voz nunca havia soado tão bem, sua composições nunca haviam sido tão bem construídas, apropriando-se do que havia de mais interessante na época, entretendo e mantendo-se fiel a sua essência.Um ótimo trabalho,imperfeito como todos mas digo de atenção.Não é necessário dar uma nota.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016



Vale Dos Homosexuais

     
    Do meu quarto,eu ouvi uns comentários estranhos sobre travecas crucificadas e economia de energia, nada muito novo considerando que durante as noites você sempre encontra meus pais sentados em frente a televisão depois de um bom jantar.Eu estava lendo, uma leitura um tanto ousada para alguém como eu.Aquele livro do Salomão é tão cheio de juras apaixonadas que é difícil não sentir calor.Eu gosto.
    Enquanto eu lia,podia ouvir os comentários sobre a filha de um conhecido deles que virou lésbica e saiu de casa, foi expulsa, não sei ao certo.Sim,eles pareciam não gostar dela e sim,tudo aquilo de falar da vida dos outros me deixou sonolento pacas...







   - Oi, pode me dar uma informação?
   - Posso dar mais que isso, se você quiser.
   - Geralmente,o que se faz por aqui? Nem sei onde eu estou.
   - Se faz bastante coisa por aqui.Se faz em grupo,se faz com três,com dois,sozinho.Se faz só nas palavras,tem gente que nem dá beijo enquanto faz,eu acho isso horrível inclusive.
   - Mas espera, do que você falou?
   - Da única coisa que todos aqui tem em comum.
   - Aqui é tipo um albergue?
   - Se você encara assim,tudo bem.Só que aqui atendemos um tipo de gente mais específica.Pode entrar se quiser.
   - E por onde se entra?
   - Aquela porta enorme ali,sua carla.Ah é melhor eu ir contigo senão você vai perder mais do que só a tua dignidade.
   - Tudo bem então.

  Eu lembrei da minha primeira creche naquele lugar,tinha algumas serpentinas presas por barbantes acima das nossas cabeças e várias pequenas casas,todas coloridas também.As janelas eram todas abertas, assim como as portas.Tinha gente que saia de casa e entrava em outra sem nem pedir licença,um espaço com mesas e guarda sóis onde tinha gente lendo e casais abraçados.

   - Isso te parece com um albergue?
   - Parece muito mais um bairro de classe média,desses que precisa de interfone pra entrar.
   - Por isso que eu fico lá na frente,pra saber quem chega e o que quer.
   - Eu nem lembro como cheguei aqui.
   - Ai coitadinho,gente! Gente! Cheguem aqui,queridas! O trauma foi tão forte que ele nem sabe como chegou aqui.
  
"Ai que lindinho";"Meu Deus,que pecado"; "Querido, é ativo ou passivo";"O que te aconteceu?"; "Quando você descobriu que é bicha?"; "Se abala não, querida";"Me passa o whats?";"Que não seja little monster";"Qual é a tua diva?";"Devem ter visto ele usando roupa da mãe...";"Tem cara de que nem sabe fazer chuca";"Ai querido,fica calmo";"Sabe fazer twerk?";"Quem daqui você pegaria?"...

 - Gente! Mais calma,pensa numa neide.
 Risos
 - Vocês precisam me ensinar a língua de vocês,é sério.
- Então vem cá que eu tenho um casal pra te apresentar.
- Mas eu nem sei quem você é.
- Tudo bem, eu sou o Jorginho.
- Oi,esse lugar é tão bonito.
- Tudo bem,coisinha do raciocínio lento.Agora me desaquenda daqui.Por favor,querida.
- Mas você não me apresentou aqueles, aqueles que você falou...
- O casal, alice.Vem comigo.

Ven comigo,ven comigo baby.Christina Aguilera,certo?











CONTINUA...



O Que não Dizer à Sua Mãe Quando Está Chapado...




*
1 - Mãe,mãe!! Me ajuda!!
2 - O que foi filho?
1 - Me empresta a chapinha...



**
3 - "Liberdade pra dentro da cabeça..."
4 - Menino,que música é essa? Tá drogado menino?
3 - É isso mesmo mãe, não é legal?
4 - Claro que não,sente esse cheiro.Tá horrível.
3 - Ué mãe,acabei de fazer um perfume.Saca essa, Cannabis n°5!!


***
5 - Mãe,teu nariz tá sujo.Tava fazendo bolo?
6 - uhum HAHAHAHAHA
5 - Mãe,tu tá nessas agora?
6 - Bateu uma onda forte....


****
2 - Eu adorei a tua ideia de a gente pedir comida na temakeria.
4- Eu também,filho.Seus olhos estão vermelhos.O que é isso?
2 - É a erva forte,mãe.


****
1 - "Legalize já,legalize já..."
3 - Menino,desliga essa música.Desliga agora!
1 - Por que mãe?
3 - Música de drogado,de apologia.Tem tanta música melhor...
1 - Tipo qual?
3 - "Vou apertar mas não vou ascender agora..." ( sai cantando alucinado/alucinada)
1 - Então tá né.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016


Brasil E Suas Querelas




O papel que eu joguei no chão
Voltou pra mim junto de ratos
Se pretos morrem sem qualquer razão
Melhor dizer que sou pardo aos amigos

Brasil não seria Brasil se não tivesse problema

Cárcere privado de cada dia
Vigiado por minhas vizinhas
Eu posso sonegar como o jogador fazia
É só ter descrição com as minhas putas

Brasil não seria Brasil se não tivesse problema

Palavras amargas
Servidas no jantar
Ecoam na cama
Quando vou me deitar
Eu saio e saio
Sem ter por onde ir
É de mim que vou fugir


A carreira branca traz liberdade
Pra dentro da cabeça
Como se aprende a ser gente?
É mais legal zoar a presidente
Fica a dica





sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Aqui,Nessa Mesa de Bar


Música alta,pessoas alteras na calçada.E um rapaz,estilo social esporte,bolsa lateral de couro-falso pois o cara contribui para o Greenpeace- entra calmamente no que parece ser uma cervejaria.
Ao menos,parecia.

 - Licença,vocês tem câncer?
 - Aqui é o lugar certo!Você prefere safra doze anos? Qualquer coisa,tem uma cirrose da brava pra ti também e o preço é bacana.
 - Não sei muito bem,não entendo essas coisas.Me mostra que tipos que vocês tem...
 - O dia foi bem movimentado,não sei....Juninho!? Juninho!? Moleque mole do caralho,Juninho!?
 - Calma, já cheguei.
 - Vê pra mim uma demonstração da nossa cartela de opções.
 - Tudo bem,pai.Por aqui,senhor.É só me seguir até o balcão.O senhor permite eu perguntar, tens alguma preferência?

Neste momento,eles caminham lentamente por uma curta distância até o balcão.Todavia continuam conversando.

  - Um dia desses eu fui pesquisar uma tal de pelagra,é uma maravilha.
  - Mas não acha que diarreias constantes são pra crianças? Me perdoe mas o senhor precisa de algo mais másculo, mais a sua cara.Posso fazer uma sugestão?
 - Claro.

Juninho se descola mais ao canto e abre uma pequena escada.De lá do topo...

 - Esse daqui...trombose.Atenção pois pra você realmente sentir esse daqui descer redondinho precisa tomar por um certo tempo, tipo, até ter bastante no teu sangue.Se você tiver sorte,vai que te dá um infarto hein?
 - Legal.Mas acho que ainda preciso de mais opções.
Descendo alguns degraus,ele continua.
 - Tudo bem,que tal uma inflamação no fígado? O povão conhece por hepatite.
 - Interessante.
 - Esse é um clássico, Gastrite.É forte, é implacável, não é do tipo que te mata mas bem que ajuda.
 - Ainda bem, morrer sem sofrer não tem graça.
 - Esse é o espírito!!
 - Gostei do senhor,faz o meu tipo.Juninho disse voltando-se ao cliente, se aproximando e acariciando-o de forma maliciosa.Se quiser, eu tenho um que é especial que eu posso te fornecer de graça.
 - Do que você tá falando?
 - Daquela doença anteriormente conhecida como a peste gay...Aids.
 - Achei que nem existisse mais.
 - Me acompanhe que eu te mostro o que não existe...
 - O que? Como assim? Perdeu o juízo?
 - Mas você não está curioso?
 - Talvez mas...que tipo de doença é essa que não se bebe?
 - Espera, não vem problematizar aqui não.
 - Não senhor,acho que prefiro outra coisa.
 - Tudo bem,deixe eu me recompor.O senhor tem uma ideia do que quer?
 - Eu quero alguma coisa pra me fazer perder a cabeça.
 - Hmm,acho que entendi.
 - O senhor precisa de um coma alcoólico.
 - Ah mas vocês só tem coisas tipo isso,acho que vou querer algo mais leve.Tipo,só pra perder alguns neurônios.
 - Então dá uma passadinha lá na esquina que eles tem massa lá,aqui não tem nada disso.
 - Maconha você diz?
 - Você me entendeu.
 - Tudo bem então.Boa tarde e que Deus te abençoe.
 - Deus?Mas agora eu preciso dizer...Se o mundo existe,graças a Deus,por que existe? Graças a Deus porque nós fazemos o mundo,desculpa falar...



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Karina Buhr - Selvática (Resenha)




Eu sempre consumi bastante música como alguém que sempre teve dificuldade de se expressar e escrevendo versos,descobriu a libertadora proeza da escrita.Agora resolvi falar desse disco que saiu ano passado, um dos poucos lançamentos que eu acompanhei, e até hoje me chama atenção.Eu não preciso comentar sobre a carreira dela pois essas informações se encontra facilmente on line.As bandas nas quais ela já foi percussionista,uma carreira bem sucedida como atriz de teatro e,agora, uma cantora-compositora-poeta-ativista independente, no controle de tudo o que faz e um dos destaques da música atual.
Esse disco,que veio de um livreto de poemas lançado previamente por ela mesma, mostra um desenvolvimento de tudo o que ela já fazia, assimilando diferentes estilos de rock com a música nacional e um sotaque muito gostoso.O disco começa com Dragão, leve e despretensiosa, falando sobre os leões que enfrentamos todos os dias e como não é tão ruim estar triste, afinal de contas.Alcunha de Ladrão também possui a mesma vibe  só que um pouco mais ska e menos dub.A música faz um comentário sobre o que a fome e a necessidade fazem com alguém em desespero.Todavia, há um tom mais cômico nisso.
Tudo nesse disco soa diferente,a produção, a qualidade da gravação e equalização das faixas.Fora que há uma mudança na sonoridade também,por causa da pequena mudança de formação da banda de peso que a acompanha já faz anos.Aqui,há a presença de sintetizadores , mesmo em momentos mais pesados como a toda-poderosa Eu Sou Um Monstro, Conta Gotas que lembra estranhamente o brit pop e o rock do início do século.Até mesmo na urgente Pic Nic, uma forma divertida de falar da dinâmica de uma família e as diferenças em relação a vida dos patrões e da empregada. Casa de Prédio é o mais próximo do punk rock que o disco chega mas não deixa de ser pesada, assim como a faixa-título que inspirada em versículos da Bíblia, enaltece o valor da mulher, a mulher guerreira, que luta pelo o que quer, diferente do comportamento que a própria Bíblia indica como comportamento correto.Não há nada de submissão nestas terras.






Inclusive,Karina é protagonista nesse disco, empoderada de suas verdades ela aborda a violência doméstica em Esôfago, a imbatível amazona de Rimã, a destemida porém vulnerável de Vela e Navalha e até mesmo a romântica de Desperdiço-Te-Me.
Experimentando as diferentes nuances de quem ela é, o disco tem coesão,uma mensagem coerente e necessária (apesar de ela mesma admitir não gostar que seja preciso endereçar esses temas), uma versatilidade de sons que esbarram em diferentes direções mas possui um caminho particular e bonito de se apreciar apesar dos espinhos, moscas e relva alta.











Nota: 9,0


http://www.karinabuhr.com.br/
https://www.youtube.com/watch?v=CHdUGygVjj4

sábado, 2 de janeiro de 2016

Invasão de Domicílio


Olhe pra mim.
Agora olhe de novo.
O que você vê? 
    Tenho a impressão que ninguém percebe mas ainda sinto nossos corações ligados.Eu construí minha vida e talvez se eu não estivesse naquele lugar, naquela situação não muito convidativa,não seria tão abençoada como sou hoje.Sim, pois hoje eu faço o que gosto,tenho uma família, uma vida confortável.Seria difícil eu me queixar.Porém eu sei que meu jeito de ver as pessoas mudou.
    De volta àquele momeno,estou andando pela avenida do centro da cidade,em direção ao ponto de ônibus,sem nenhuma preocupação que não seja chegar em casa e dormir.No caminho,passei distraída por uma moça de vestido curto e saltos plataforma nos quais eu nunca conseguiria me equilibrar.
    Inclusive,estranhei muito alguém usar pouca roupa na fria e vazia João Pessoa daquela noite mas tudo bem.
     - Desculpa, não prestei atenção.
     - Tá bom, agora rala daqui.
     - Imagina se eu não fosse educada.
     - Se cuida querida.Agora circulando, vai.
     - Eu pedi desculpa,sua idiota.
     - Tá, foda-se.
  Ofendida,eu segui meu caminho e meio que deduzi o que ela estava fazendo enquanto eu me afastava.Nem foi tão difícil,afinal.No ponto de ônibus,eu esperei sozinha, com medo de que não houvessem mais ônibus da linha que me levaria para casa.
  Ainda estava sentada no banco quando senti um arrepio,o vento me golpeava como uma foice.Tudo bem, eu posso ter exagerado mas eu senti o perigo.
   Uns gritos abafados pela chuva, não muito distantes mas me soavam familiares por virem de um beco na quadra seguinte que não tinha uma fama muito boa, o tipo de boato que todos ajudam a espalhar e ninguém sabe o porquê.Me aproximei o suficiente para expiar na surdina, bem relutante.
   Uma viatura,três policiais e um homem abraçado ao seu cobertor,fazendo uma oração.Pelo menos,essa foi a minha impressão inicial.

       - Como os senhores entram assim na minha casa?
       - Ele pensa que sabe onde tá.Os outros riram.
       - Parece que nem sabe do lixo que é, disse o segundo.
       - Olha pra mim,vocês acham que eu permito um desrespeito desses? Aqui tudo estava em paz até vocês derrubarem minha cama,espantarem meus cachorros.
       - Ninguém mandou tu escolher a sarjeta.Fala pra ele o que a gente faz com quem tá incomodando Samuca.
       - A gente limpa da rua,certo Miguel?
       - Certo,chega de papo.
       - Espera aí! Chico? Chico? Cadê meu bebê? Meu cachorro,por favor.
    Eu senti que precisava interferir nessa hora.Não sei o que me ocorreu, meu feitio nunca foi esse.
       - Tio! Tudo bem com o senhor? Deus,olha só pro senhor.Como o senhor foi se perder assim? Vem comigo, vem que o senhor precisa.
        - Então tá resolvido,vamo lá que ninguém viu nada aqui.
        - Falô então tiozão,se cuida.Disse o Miguel.
        - Qualquer coisa que precisar,estamos aqui.A gente sempre sabe tudo.Disse o único cujo o nome eu não tinha ouvido.
        - Obrigado pelos serviços,eu disse, boa noite pra todos.
   Leio notícias o suficiente para ter uma ideia de como eles são treinados.Pra mim,testemunha calada é cúmplice de crime e eu não quero ser presa pela minha consciência nessa vida.
        - O que foi que você fez? Eles já estavam indo embora.
        - Puxa, não dava pra você fingir que me agradece?
        - Fingir pra quê? Agir como todo mundo por quê?
        - Como assim?
        - Em um mundo de mentirosos eu não tenho chance.Você pode fingir que eu não estou aqui,se quiser.Eu não posso.
         - Cadê sua família?
         - Em algum lugar,vendo a vida passar.
         - Você não me parece que tá fazendo muita coisa dormindo aqui.Esse prédio vai cair na sua cabeça qualquer dia desses, vai pra algum albergue.
         - E se eu disser que a escolha foi minha?
         - Sua?
         - Eu faço o que eu quero,sou mais livre que qualquer um.Por isso me olham torto.
         - Enlouqueceu?
        -  Prefiro que esse prédio caia na minha cabeça do que na sua.
        -  Não seja bobo, por que você iria querer isso?
        -  Você tem tanto pra aprender e nem imagina, disse rindo.
        -   Mas e você?
        - Eu já vivi bastante.
        - Não sei o que eu tô fazendo aqui...
        - É só fazer um esforço que tudo fica bem.Direitos iguais,sabe? Só que eu não sou visto como igual ou você por acaso achava que eu sei me virar sozinho quando me viu pela primeira vez? Tadinho, ele come lixo.Coitado,ele dorme na chuva.Cada um tem o que pode ter, eu encontrei um jeito de viver e me acostumei com ele.
    Mas não foi sempre assim.