segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ray Of Light - Madonna (Resenha)






    Ela se encontrou.Uma das grandes ambições de Madonna era se realizar como atriz, em poucos momentos ela conseguiu se destacar e desde o início da década de 90 ela tinha um pequeno feixe de luz o qual sempre se certificava de ver se estava ao alcance,este era o projeto do filme Evita, que demorou anos para acontecer.
    Outra de suas grandes possíveis conquistas era a maternidade, ter crescido sem a mãe é um fator considerável para isso.Quando aconteceram,vieram todas de uma vez.Madonna entrou no elenco da versão cinematográfica de um dos maiores musicais da Broadway interpretando Evita Perón, ficou grávida de Lourdes Maria durante as filmagens e o filme foi um sucesso de público e crítica.A maternidade lhe fez amar verdadeiramente pela primeira vez, entretanto, lhe despertou a espiritualidade.
     Sim, falar desse álbum requer todo esse background.Atenta ao que lhe cercava,mais do que nunca, usou essa sensibilidade na hora de criar o disco, que passeia pela dance music, trance, trip-hop, rock, bossa nova fabricada nos EUA, sânscrito e influências que vão da psicodelia frenética das raves à introspecção.
     Com o velho parceiro de trabalho Patrick Leonard e o talentoso William Orbit ao seu lado,tudo soa coeso e inspirador,com melodias na maioria das vezes eletrônicas, sintéticas e que apresentam diferentes texturas.





   Começa com Drowned World/Substitute For Love, refletindo sobre a solidão e negatividade que a fama lhe trouxe, na esperança de procurar o que lhe faltava.Todavia, sentindo-se cada vez mais vazia.Até o nascimento da Lola,claro.Balada com uma pegada trip-hop que realmente explode quando Madonna canta sobre as pequenas coisas que encheram-na de vazio.
   Depois de encontrar no amor a sua religião, a nossa Material Girl, não pera...Madonna tenta situar-se no mundo com Swim, falando bastante sobre pecados,especialmente sobre expurgá-los, procurar mudanças e mergulhar de cabeça na sua espiritualidade quando diz "Eu vou nadar até o fundo do oceano", tem a ver com abrir mão do ego e se entregar a algo maior que a própria vida.Ray of Light é a continuação desse tema, uma observação, segundo ela própria, de como somos diminutos neste universo ao mesmo tempo nos coloca como parte dele.Algo que tem muito a ver com os princípios da cabala, os quais ela estudava na época, que pregam sobre tomarmos o controle de nosso destino, como fazer o universo trabalhar ao nosso favor entre outras coisas.É intensa, agitada, dançante, contemplativa e cheia de energia, é catártica, é uma maravilha.Tem uma versão não oficial de sete minutos porém acho que foi bom terem cortado os dois minutos a mais pois não acrescentavam muito à música.
     Candy Perfume Girl demonstra ter intensidade,de uma forma mais sensual, anda que estranha tem um lugar no disco por representar a feminilidade.A energia dessa música vem principalmente das guitarras que acrescentam muito ao clima de mistério enevoado que se fortalece ainda mais em Skin, canção mais próxima do trance, "Beije-me,estou morrendo" é um dos versos dessa música extremamente urgente,dançante, hipnótica e cheia de desejo.



 "Nada mais importa./O amor é tudo o que nós precisamos." 
  Mais direta na mensagem em Nothing Really Matters ela continua a observar como o amor pela sua filha a fez mudar, mesmo que fique um tanto piegas em alguns momentos a música é divertida, soa como a Madonna que nós conhecemos em uma roupagem mais doce, aludindo ao ensinamento de dar e receber,estar em sintonia com o universo.Sky Fits Heaven é mais poética, uma das melhores do disco, falando sobre tudo o que ela busca e repassando os ensinamentos que absorveu.É contemplativa e ao mesmo tempo dançante, com mudanças instrumentais bruscas todavia muito bem colocadas. "Eu acho que vou seguir meu coração./É um lugar muito bom para se começar".


  Shanti/Ashanti é um mantra todo em sânscrito com batidas de grave pulsação,ruídos e experimentações que não parecem a esmo na canção mas não acrescenta muito à narrativa.Pelo menos, não como a canção seguinte.Os arranjos de cordas em meio a batidas quebradas, acordes orientais ainda que sintéticos e lamentos sobre uma pessoa que se tornou insensível,talvez um amante em particular, provavelmente a Madonna de Ray of Light voltando no tempo tentando em vão aconselhar a garota egocêntrica de antes, no auge de sua mania por grandeza.Na canção seguinte, Madonna diz adeus a esta pessoa e que não há nenhum problema em se desapegar da negatividade nesta balada agridoce, de arranjos de cordas melancólicas e um violão ao fundo, The Power of Goodbye é libertador e antenado nas novidades da música eletrônica.




     To Have And Not To Hold termina esta trilogia romântica com um último comentário depois do término,há uma dor ao fundo de uma tapeçaria de sintetizadores só que existe esta sensação de que não haver o que fazer e nem porque tomar alguma atitude a respeito disso.Fora desta narrativa, fala sobre buscar o inalcançável, algo que pode se referir à busca por felicidade e contentamento na fama e na fortuna.Little Star vem trazendo o que o disco tinha de dançante algumas canções atrás só que com a mesma pegada suave e tranquila , uma canção de ninar para Lola se lembrar do quanto é valiosa para sua mamãe.E a praticamente sombria Mer Girl é um poema soturno com memórias nebulosas sobre ver o corpo da própria mãe, um mistério até para sua própria compositora.Tem elementos de jazz e música eletrônica, soa calma e sorrateira ao mesmo tempo que bonita. 
"Eu corri e corri./Ainda estou fugindo."
     Não estamos em 1998 e Madge saiu desse caminho mais iluminado faz tempo mas é curioso retornar a este álbum e reparar na forma como cada um registra um momento diferente da mesma pessoa, facetas diferentes sendo reveladas.Neste momento, ela soube criar um auto retrato musical interessantíssimo.
     Sua voz nunca havia soado tão bem, sua composições nunca haviam sido tão bem construídas, apropriando-se do que havia de mais interessante na época, entretendo e mantendo-se fiel a sua essência.Um ótimo trabalho,imperfeito como todos mas digo de atenção.Não é necessário dar uma nota.


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