sábado, 2 de janeiro de 2016

Invasão de Domicílio


Olhe pra mim.
Agora olhe de novo.
O que você vê? 
    Tenho a impressão que ninguém percebe mas ainda sinto nossos corações ligados.Eu construí minha vida e talvez se eu não estivesse naquele lugar, naquela situação não muito convidativa,não seria tão abençoada como sou hoje.Sim, pois hoje eu faço o que gosto,tenho uma família, uma vida confortável.Seria difícil eu me queixar.Porém eu sei que meu jeito de ver as pessoas mudou.
    De volta àquele momeno,estou andando pela avenida do centro da cidade,em direção ao ponto de ônibus,sem nenhuma preocupação que não seja chegar em casa e dormir.No caminho,passei distraída por uma moça de vestido curto e saltos plataforma nos quais eu nunca conseguiria me equilibrar.
    Inclusive,estranhei muito alguém usar pouca roupa na fria e vazia João Pessoa daquela noite mas tudo bem.
     - Desculpa, não prestei atenção.
     - Tá bom, agora rala daqui.
     - Imagina se eu não fosse educada.
     - Se cuida querida.Agora circulando, vai.
     - Eu pedi desculpa,sua idiota.
     - Tá, foda-se.
  Ofendida,eu segui meu caminho e meio que deduzi o que ela estava fazendo enquanto eu me afastava.Nem foi tão difícil,afinal.No ponto de ônibus,eu esperei sozinha, com medo de que não houvessem mais ônibus da linha que me levaria para casa.
  Ainda estava sentada no banco quando senti um arrepio,o vento me golpeava como uma foice.Tudo bem, eu posso ter exagerado mas eu senti o perigo.
   Uns gritos abafados pela chuva, não muito distantes mas me soavam familiares por virem de um beco na quadra seguinte que não tinha uma fama muito boa, o tipo de boato que todos ajudam a espalhar e ninguém sabe o porquê.Me aproximei o suficiente para expiar na surdina, bem relutante.
   Uma viatura,três policiais e um homem abraçado ao seu cobertor,fazendo uma oração.Pelo menos,essa foi a minha impressão inicial.

       - Como os senhores entram assim na minha casa?
       - Ele pensa que sabe onde tá.Os outros riram.
       - Parece que nem sabe do lixo que é, disse o segundo.
       - Olha pra mim,vocês acham que eu permito um desrespeito desses? Aqui tudo estava em paz até vocês derrubarem minha cama,espantarem meus cachorros.
       - Ninguém mandou tu escolher a sarjeta.Fala pra ele o que a gente faz com quem tá incomodando Samuca.
       - A gente limpa da rua,certo Miguel?
       - Certo,chega de papo.
       - Espera aí! Chico? Chico? Cadê meu bebê? Meu cachorro,por favor.
    Eu senti que precisava interferir nessa hora.Não sei o que me ocorreu, meu feitio nunca foi esse.
       - Tio! Tudo bem com o senhor? Deus,olha só pro senhor.Como o senhor foi se perder assim? Vem comigo, vem que o senhor precisa.
        - Então tá resolvido,vamo lá que ninguém viu nada aqui.
        - Falô então tiozão,se cuida.Disse o Miguel.
        - Qualquer coisa que precisar,estamos aqui.A gente sempre sabe tudo.Disse o único cujo o nome eu não tinha ouvido.
        - Obrigado pelos serviços,eu disse, boa noite pra todos.
   Leio notícias o suficiente para ter uma ideia de como eles são treinados.Pra mim,testemunha calada é cúmplice de crime e eu não quero ser presa pela minha consciência nessa vida.
        - O que foi que você fez? Eles já estavam indo embora.
        - Puxa, não dava pra você fingir que me agradece?
        - Fingir pra quê? Agir como todo mundo por quê?
        - Como assim?
        - Em um mundo de mentirosos eu não tenho chance.Você pode fingir que eu não estou aqui,se quiser.Eu não posso.
         - Cadê sua família?
         - Em algum lugar,vendo a vida passar.
         - Você não me parece que tá fazendo muita coisa dormindo aqui.Esse prédio vai cair na sua cabeça qualquer dia desses, vai pra algum albergue.
         - E se eu disser que a escolha foi minha?
         - Sua?
         - Eu faço o que eu quero,sou mais livre que qualquer um.Por isso me olham torto.
         - Enlouqueceu?
        -  Prefiro que esse prédio caia na minha cabeça do que na sua.
        -  Não seja bobo, por que você iria querer isso?
        -  Você tem tanto pra aprender e nem imagina, disse rindo.
        -   Mas e você?
        - Eu já vivi bastante.
        - Não sei o que eu tô fazendo aqui...
        - É só fazer um esforço que tudo fica bem.Direitos iguais,sabe? Só que eu não sou visto como igual ou você por acaso achava que eu sei me virar sozinho quando me viu pela primeira vez? Tadinho, ele come lixo.Coitado,ele dorme na chuva.Cada um tem o que pode ter, eu encontrei um jeito de viver e me acostumei com ele.
    Mas não foi sempre assim.

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