Novos Projetos
- Meu pai,tudo bem com o senhor?
- Estaria se tivesse alguém para ajudar na firma,só que ninguém faz nada que presta nessa casa.
- Eu estava escrevendo pai,o senhor sabe.Quando ficar pronto, vai ser o melhor projeto de todos e o senhor vai me olhar, sorrindo, dizendo que eu tinha razão.
- Eu não dou razão para vagabundo.Onde está o jantar?
- Eu fiz,a empregada teve folga hoje.
- Todo mundo é folgado aqui.Vou comer fora,até.
Deixei a mesa posta para nós cinco,mesmo que somente eu fosse comer.Coloquei meu prato e fiz minha refeição,acompanhado dos pratos e talheres.Minha mãe e minhas duas irmãs se juntaram a nós quando eu já estava terminando.
- Meu filho não conseguiu se conter,tadinho.Tudo bem contigo?
- Tudo bem,a macarronada ainda está quente.
- Só sabe fazer macarrão,disse Mariana.Irmã mais velha é um saco.
- Mas faço macarrão melhor que a empregada.Vai me dizer que não ?
- Não.
- Que chatos vocês,apenas reclamam.reclamam. Kiara, a mais nova prova ser a mais madura.
- Tem razão,ninguém aqui quer saber do meu projeto,pelo jeito.
- Depois você me conta,tudo bem filho?
- Tudo.Esse depois nunca aconteceu.
O jantar acabou e eu subi até meu quarto.Passando pelos quadros de antepassados, com molduras de mogno, bem simples.Subindo as escadas cujos degraus, eram de mármore negro cercado de um piso branco lustroso, que também se encontrava pelo chão da casa.Virando à direita,terceira porta,ao lado de um banheiro pequeno mas não tão apertado quanto o banheiro perto da sala, luxo de quem gosta de imóveis modernos.
No meu quarto,os faróis dos carros que passavam, abriam clarões e se ouvia as buzinas, as músicas,a agitação das pessoas.De cortinas fechadas e luz acesa, me cerquei de anotações e dois livros.Até que eu ouvi.Parecia um susto.E aquilo me assustou o bastante para correr até...
- Pai, para com isso.Disse eu,empurrando-o.Ele segurava fortemente minha mãe.
- Não se mete.
Minha mãe e seu nariz expelindo sangue estavam de joelhos, num esforço inútil de se recompor sem que eu perceba.
- Ah filho, tua mãe caiu e o nariz quebrou.Teu pai tentou me ajudar, não briga com ele.
- Não tenta me enganar,mãe.
- Cala a boca que eu não lhe mandei dizer nada.Você volte para o seu quarto.Não aconteceu nada aqui.
Enquanto ele falava, eu fui me aproximando.Acabei por cair com o empurrão que levei e me levantei correndo,imaginando quantas vezes e de que maneiras tudo isso vem acontecendo.Quase como se eu pudesse ver todas as cicatrizes,escondidas pela maquiagem, pelos vestidos,pelos pequenos e "inocentes" acidentes quando tentava cozinhar.Eu vi tudo.
Me confessei com a Glória pois não estava a fim de ser um filho obediente naquele momento.Ela,sendo a empregada da casa, nunca deixaria algo assim passar por ela.Glória é atenciosa,detalhista quando arruma a casa e o mais incrível é que meu pai gosta da comida dela, o que é difícil considerando que ele não colabora muito para que todos saibam quais são suas vontades.
Não era exatamente o tema das conversas que ela e minha mãe costumavam ter mas aquele era um segredo selado,uma informação turva até mesmo para ela,que não fazia perguntas, não se atrevia a comentar, era subentendido que ela soubesse o seu lugar.
O tempo passou, pelos cantos e frestas, eu vi aqueles "acidentes" acontecerem outras vezes.E outras vezes,outras vezes...
- Glória, o almoço ficou pronto?
- Tá com fome já? Calma que logo fica pronto.
- Não,está tudo bem.Quero perguntar uma coisa.
- O que foi?
- Como você ficou tão boa com a limpeza?
- Eu sabia sujar muito bem.Mas se a gente faz bagunça tem que limpar, a gente aprende a ser responsável assim.Quando a mãe manda arrumar a cama, lavar o teu prato,essas coisas.
- Já achou alguma coisa vergonhosa aqui?
- Não porquê eu não sou de me meter na vida dos teus pais.
- Certeza?
- Menino, respeita os mais velhos.
- Nem eles mesmos se respeitam.
- Me deixa fazer teu almoço em paz,tchau.Disse ela, me afastando do fogão.
- Meu pai bateu na minha mãe.E não é de hoje.
- Tenho nada a ver com isso.
- Mas você sabe.
- Sei.
- Há quanto tempo?
- O bastante.
- Do que você sabe?
- Sei de nada.E não te interessa,seus pais se resolvem.
- Você sabe muito bem como eles resolvem.
- Seu Felipe,acha que eu sou paga pra quê?
- Não falei de dinheiro.
- De que estamos falando,pequeno notável?
- Pára de falar comigo como se eu pensasse que sou o dono da razão.
- Todo jovem pensa que é.
- E daí?
- E daí que é assim que vocês acabam com a própria vida.
- É isso o que eu vejo aqui,você também vê.
- Mas não posso fazer nada.Fui avisada pela tua mãe.
- Ah termina o almoço aí,eu vou embora.
- Não faça nada pra se arrepender.
Não conheço arrependimentos,eu posso dizer que aquela foi a última vez que a Glória me viu,um jovem duvidando de tudo e todos que eu conheci,cada vez mais cansado de estar preso pelo conformismo, pelas aparências, pela necessidade de agradar as pessoas.Isso não tem nada a ver com o meu projeto de vida,eu estudava o que sempre foi a minha paixão,motores de automóveis, se eu tivesse descoberto como substituir combustíveis fósseis mudaria algo da forma que conhecemos.Talvez não, acredito que posso ajudar de outras formas.
A melhor maneira de começar
É aprender a desprender e desapegar
Tive mágoas
Mas não posso desanimar
É besteira dar detalhes, brechas
À sentimentos que podem nos matar
Sou do mundo
E do meu lar,sei cuidar
Somos, dos cílios
Aos longínquos amigos
Ligados
Do pó desta pele ao universo e seus poros