domingo, 20 de dezembro de 2015

Novos Projetos



              - Meu pai,tudo bem com o senhor?
              - Estaria se tivesse alguém para ajudar na firma,só que ninguém faz nada que presta nessa casa.
             - Eu estava escrevendo pai,o senhor sabe.Quando ficar pronto, vai ser o melhor projeto de todos e o senhor vai me olhar, sorrindo, dizendo que eu tinha razão.
             - Eu não dou razão para vagabundo.Onde está o jantar?
             - Eu fiz,a empregada teve folga hoje.
             - Todo mundo é folgado aqui.Vou comer fora,até.
   Deixei a mesa posta para nós cinco,mesmo que somente eu fosse comer.Coloquei meu prato e fiz minha refeição,acompanhado dos pratos e talheres.Minha mãe e minhas duas irmãs se juntaram a nós quando eu já estava terminando.
             - Meu filho não conseguiu se conter,tadinho.Tudo bem contigo?
             - Tudo bem,a macarronada ainda está quente.
             - Só sabe fazer macarrão,disse Mariana.Irmã mais velha é um saco.
             - Mas faço macarrão melhor que a empregada.Vai me dizer que não ?
             - Não.
             - Que chatos vocês,apenas reclamam.reclamam. Kiara, a mais nova prova ser a mais madura.
             - Tem razão,ninguém aqui quer saber do meu projeto,pelo jeito.
             - Depois você me conta,tudo bem filho?
             - Tudo.Esse depois nunca aconteceu.
    O jantar acabou e eu subi até meu quarto.Passando pelos quadros de antepassados, com molduras de mogno, bem simples.Subindo as escadas cujos degraus, eram de mármore negro cercado de um piso branco lustroso, que também se encontrava pelo chão da casa.Virando à direita,terceira porta,ao lado de um banheiro pequeno mas não tão apertado quanto o banheiro perto da sala, luxo de quem gosta de imóveis modernos.
     No meu quarto,os faróis dos carros que passavam, abriam clarões e se ouvia as buzinas, as músicas,a agitação das pessoas.De cortinas fechadas e luz acesa, me cerquei de anotações e dois livros.Até que eu ouvi.Parecia um susto.E aquilo me assustou o bastante para correr até...
          - Pai, para com isso.Disse eu,empurrando-o.Ele segurava fortemente minha mãe.
          - Não se mete.
   Minha mãe e seu nariz expelindo sangue estavam de joelhos, num esforço inútil de se recompor sem que eu perceba. 
          - Ah filho, tua mãe caiu e o nariz quebrou.Teu pai tentou me ajudar, não briga com ele.
          - Não tenta me enganar,mãe.
          - Cala a boca que eu não lhe mandei dizer nada.Você volte para o seu quarto.Não aconteceu nada aqui.
     Enquanto ele falava, eu fui me aproximando.Acabei por cair com o empurrão que levei e me levantei correndo,imaginando quantas vezes e de que maneiras tudo isso vem acontecendo.Quase como se eu pudesse ver todas as cicatrizes,escondidas pela maquiagem, pelos vestidos,pelos pequenos e "inocentes" acidentes quando tentava cozinhar.Eu vi tudo.
     Me confessei com a Glória pois não estava a fim de ser um filho obediente naquele momento.Ela,sendo a empregada da casa, nunca deixaria algo assim passar por ela.Glória é atenciosa,detalhista quando arruma a casa e o mais incrível é que meu pai gosta da comida dela, o que é difícil considerando que ele não colabora muito para que todos saibam quais são suas vontades.
     Não era exatamente o tema das conversas que ela e minha mãe costumavam ter mas aquele era um segredo selado,uma informação turva até mesmo para ela,que não fazia perguntas, não se atrevia a comentar, era subentendido que ela soubesse o seu lugar.
     O tempo passou, pelos cantos e frestas, eu vi aqueles "acidentes" acontecerem outras vezes.E outras vezes,outras vezes...
          - Glória, o almoço ficou pronto?
          - Tá com fome já? Calma que logo fica pronto.
          - Não,está tudo bem.Quero perguntar uma coisa.
          - O que foi?
          - Como você ficou tão boa com a limpeza?
          - Eu sabia sujar muito bem.Mas se a gente faz bagunça tem que limpar, a gente aprende a ser responsável assim.Quando a mãe manda arrumar a cama, lavar o teu prato,essas coisas.
          - Já achou alguma coisa vergonhosa aqui?
          - Não porquê eu não sou de me meter na vida dos teus pais.
          - Certeza?
          - Menino, respeita os mais velhos.
          - Nem eles mesmos se respeitam.
          - Me deixa fazer teu almoço em paz,tchau.Disse ela, me afastando do fogão.
          - Meu pai bateu na minha mãe.E não é de hoje.
          - Tenho nada a ver com isso.
          - Mas você sabe.
          - Sei.
          - Há quanto tempo?
          - O bastante.
          - Do que você sabe?
          -  Sei de nada.E não te interessa,seus pais se resolvem.
          -  Você sabe muito bem como eles resolvem.
          - Seu Felipe,acha que eu sou paga pra quê?
          - Não falei de dinheiro.
          - De que estamos falando,pequeno notável?
          - Pára de falar comigo como se eu pensasse que sou o dono da razão.
          - Todo jovem pensa que é.
          - E daí?
          - E daí que é assim que vocês acabam com a própria vida.
          - É isso o que eu vejo aqui,você também vê.
          - Mas não posso fazer nada.Fui avisada pela tua mãe.
          - Ah termina o almoço aí,eu vou embora.
          - Não faça nada pra se arrepender.
    Não conheço arrependimentos,eu posso dizer que aquela foi a última vez que a Glória me viu,um jovem duvidando de tudo e todos que eu conheci,cada vez mais cansado de estar preso pelo conformismo, pelas aparências, pela necessidade de agradar as pessoas.Isso não tem nada a ver com o meu projeto de vida,eu estudava o que sempre foi a minha paixão,motores de automóveis, se eu tivesse descoberto como substituir combustíveis fósseis mudaria algo da forma que conhecemos.Talvez não, acredito que posso ajudar de outras formas.


A melhor maneira de começar
É aprender a desprender e desapegar
Tive mágoas
Mas não posso desanimar

É besteira dar detalhes, brechas
À sentimentos que podem nos matar
Sou do mundo
E do meu lar,sei cuidar

Somos, dos cílios
Aos longínquos amigos
Ligados
Do pó desta pele ao universo e seus poros





domingo, 13 de dezembro de 2015














Caixa de Pandora




Nunca fui tão feliz em uma manhã de segunda
Apesar do ódio velado me abrir uma ferida
"Eu poderia viver assim eternamente"
"Você sempre está na minha mente"


Se você tivesse comprado aquelas alianças
Será que teria me amado por mais semanas?
Pelo menos para eu descer das nuvens
E me arrepender disso um pouco antes


Eu revelei tudo de mim
Você entendeu errado
Abriu a caixa de Pandora
E não quis ser atingido


Eu entreguei tudo de mim
Você usou a coroa
Abriu a caixa de Pandora
Se tornou outra pessoa


Se aquela noite fosse eterna
Você estaria comigo agora?
Se eu não tivesse aberto a caixa
Você teria ido embora?


Faíscas e borboletas
Discussão e dúvidas
Saudade e rancor
Nunca use a palavra...





quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Cada Teia Tem A Sua Mosca



Leia ouvindo:  https://www.youtube.com/watch?v=BWXSOEnv3Gs
                        https://www.youtube.com/watch?v=bK3WnsAge9U
                        https://www.youtube.com/watch?v=l-iAS18rv68
                        




         Tem coisas que eu simplesmente não entendo como acontecem,eu só queria comer,nem parei para almoçar hoje e naquele dia aconteceu a mesma coisa,não está sendo fácil.Mas as praças são o templo dos desocupados e eu,no meu descuido, fui vítima de uma dessas almas.
                              - Boa tarde,disse por educação.
                              - Hmmm...Boa tarde.
         Voltei  para aquilo que era o mais interessante enquanto o figura que ali estava continua sentado.Se aproxima de mim mas não me olha,ele olha longe,como se eu não estivesse lá e nem importasse que ele me fizesse derrubar o almoço.E não pára de olhar,olha através de mim,olha sem conseguir se conter.Vá lá, o que poderia ser?
                           - Com licença,disse eu,me afastando enquanto salvo meu lanche.
                           - Sabe qual a coisa mais linda?
                           - Oi?
                           - Oi,tudo bem?Olha só isso.
                           - Isso o que? Quer um pedaço?
                           - É grudento e lindo.
                           - Meu sanduíche?  
                           - Teu sanduíche mata?
                           - Como assim? Espero que não.
                           - Ali, na luz fica brilhante.
                           - Onde?
                           - É pequena de ver,difícil de enxergar.
                           - O senhor me dá licença? Deixe meu sanduíche em paz.
                           - Tô sem fome mas valeu a oferta.
                           - Que linha de raciocínio é essa?
                           - Linha? É linha! Tá quase lá!
                           - Quase onde?
                           - Tá quente,tá quente,tá pelando!
                           - Dá uma dica.
                           - Mas você sabe o que é.
                           - Seu idiota, eu perguntei o que é que você está vendo pois eu não consigo ver.
                           - Cuidado! Ele gritou,pulando do banco.
                           - O que? Calma aí,o que foi?
                           - Tem dona.
                           - Mas eu nem sei o que é.
                           - Olha a aranha ali...
                           - É da aranha? Foi a aranha que fez, é a ela que pertence?
                           - Sim e você podia ter morrido.
                           - Por quê? Assustado,perguntei.
                           - Porque você é como a mosca que fica tão ocupada voando que se esquece de olhar o céu.Aliás,o céu tá lindo hoje.





PS;ESSE QUADRO É DO VAN GOGH.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Modernidades




Se você ainda não reparou,este título está assim porque realmente não há como configurar um título escrevendo uma postagem neste blog pelo celular.Simplesmente pois eu não sei usar coisas modernas.Veja só você,estava eu primariamente pensando que meu celular tinha algum problema em particular pois eu não conseguia me conectar ao Wi Fi de casa e isso se fazia necessário já que eu tenho mais proximidade com aqueles que não moram na mesma casa que eu,até que meu irmão me avisou que haviam dois dígitos da senha faltando quando eu não achei que houvesse pois anteriormente,G me falou os números necessários mas esqueceu de um detalhe que arruinou tudo,o que me faz pensar seriamente sobre problemas de comunicação.A ideia inicial era não começar assim mas tudo bem.
Se perguntou alguma vez se você realmente entendeu o que aquela pessoa quis dizer durante uma conversa?Eu mesmo sou bem leviano as vezes mas parece que só eu sei disso.Às vezes,o significado de leviano me deixa em dúvida na hora de usar esta palavra mas finge que eu não escrevi isso,finja que sou inteligente sim?Nós vomitamos nossas opinião sobre tudo agora e como é de se esperar,muitos dizem coisas nojentas e no calor do momento,pode parecer uma boa saída se vingar das inimigas com uma piada sobre atentado.Logo depois,você, auto-proclamado dono da razão, diz o quanto é ridículo dizer algo assim sendo igualmente ofensivo.Todos vomitamos opiniões porque não sabemos escolher de quais informações se alimentar e muito menos como as digerir.
E para a minha infelicidade,isso significou o fim de um relacionamento que poderia ter florescido no meu jardim secreto de sonhos.Agora é só uma muda que secou antes da hora,apodrecendo junto a várias outras.
Mas diferente de outras pessoas,creio eu,relacionamentos não são peças de Lego que você monta e desmonta quando quer brincar,não é como se eu vivesse punhetando ideias para que não saísse porra nenhuma.
Quero trazer isso um pouco mais perto de quem quer que seja você,leitor.Seus pais por acaso te tratam como um técnico em informática quando o computador dá problema?Ou até para fazer algo como passar arquivos entre computador e celular? Ou só para fazer aquele perfil no Facebook que vai encher tua linha do tempo de cartões cheios de glitter com textos da Bíblia?Bem,é possível aprender um pouco com isso e é o seguinte: Quanto mais conhecimento,menos humildes e receptivos a novas ideias nós somos.De onde você acha que as ideias ruins de homossexualidade ou mesmo do feminismo vem? De informações das quais nos alimentamos desde a tenra idade sem se importar muito com a procedência e formamos nossa opinião com elas.Então,vomitamos a nossa opinião por aí e esta alimenta a nossa ignorância,acreditando ter razão pois sabemos daquilo desde novos.Intolerantes,nos tornamos violentos.Já que ninguém vê isso com bons olhos,nos fazemos mais interessantes em nossos perfis.
Até que a sua opinião ofenda alguém e todos se voltem contra você,mesmo que em seu lugar os detratores teriam feito o mesmo.
Você quer brincar na neve?É que assim,a bola de neve está rolando pela montanha,logo vai chegar na gente.





quinta-feira, 3 de dezembro de 2015



                      Sobre Como e Para Que Nascemos

 





         Um dia desses,acompanhei minha mãe no médico.Era um lugar pequeno e todo branco que,fora o térreo,só tinha mais um andar e pra chegar na sala do doutor,a gente usou as escadas.Nesse caminho,a gente foi subindo as escadas e na parede tinha um quadro com dois repolhos,dentro de cada um tinha um bebê,com uma cara estranha de surpresa,olhando pra mim.
         Não falei nada pra minha mãe mas eu ria que me acabava e a mamãe não sabia se me censurava ou ria junto.Longe de mim querer me intrometer no assunto deles então nem se quer fiquei perto quando a mãe foi atendida,fui brincar de trilha com umas pecinhas coloridas que ficavam presas a um trambolho estranho,pra cada peça tinha um caminho cheio de voltas e, no final, tudo voltava pro mesmo lugar.
         Ótimo,cheguei em casa e o pai tinha saído, aí fui ver desenho.Tava tudo bem,não tinha ninguém que me incomodasse.Só que de tão cansado,acabei dormindo.
      Sonhei com os meus pais indo na feira,comprando um monte de coisa, aí eles chegaram na barraca de repolho e ficaram um tempão escolhendo,olhando,pegando, toda uma cerimônia até decidir qual repolho levar.Eles voltaram pra casa tão felizes que receberam os vizinhos que os estavam cumprimentando,parabenizando e tal.Chegaram em casa e a primeira coisa que fizeram foi tirar as compras da sacola de feira.Meu pai pegou o repolho,minha mãe ficou observando ele lavar.Depois,lá foram as mãos dela abrir o repolho.
          Lá estava eu.
       Acordei nesse momento todo suado, com a minha mãe chamando pra jantar.Tomei banho,me arrumei e minha mãe, assim que me viu, me chamou pra comer salada.Era um que eu nunca tinha comido antes...Dura,branca e meio verde.Mamãe falou que aquilo era repolho em tirinhas.
          Vomitei a noite toda.
           Hoje, eu penso que ser criança é bom por quê você tem a cabeça livre para sonhar,pegar o bom da vida e aproveitar.
        Quando crescemos, a gente percebe que não pode viver do mesmo jeito, acabamos por descobrir a verdade.E a verdade dói, como um parto.
         A vida é um parto
         Dor e deleite andam juntos.
         Sempre.
          





Meu caderno já ficou pequeno demais para as minhas ambições por isso vou sair escrevendo meus contos aqui.Vai ser uma forma de testar se eu realmente sirvo pra isso.
É claro,quando eu tiver vontade.